Fantasmas da convivência

por Ariádni Said Fernandes

Época de festas. Reuniões familiares com os mais elevados objetivos: confraternização, celebração do Natal, comemoração do Reveillon… Tempo de compartilhar as conquistas e dividir os sonhos. É tudo tão lindo e poético que parece que fomos todos invadidos por uma onda de bondade incondicional.

Chegam então os noivos. Ah, que casal bonito! Eles são perfeitos um para o outro, não? Olha só quanto carinho entre eles? É mesmo, mas quanto tempo eles estão juntos? Nossa, será que eles ainda vão demorar para casar? Sei lá, não dá pra saber quem está enrolando quem ali.

Após alguns drinques sempre tem aquele primo, ou tio, e porque não amigo que fica absolutamente incoveniente e por uma questão de “liberdade” adquirida pela convivência pensa que tem o direito de chegar na frente de todos com um verdadeiro interrogatório.

E aí, quando é que sai esse casamento? Vocês não acham que já estão passando da hora? Pô, para de enrolar a menina… Vocês já compraram casa, apartamento, ah, nessa altura até um barraquinho já resolve… Hahaha.

Surge assim, do nada, aquela tia que começa com as seus conselhos absolutamente dispensáveis. Quantos anos você tem querida? Pois é, eu ouvi dizer que após uma certa idade já é gravidez de risco. E após casar é bom ficar um tempo sem filhos, para vocês se curtirem… Vocês já sabem quantos filhos querem ter? Já fez as contas para saber se vai dar?

Enfim, vocês dois viram o foco da festa. E como se não bastasse acabam sendo bombardeados com uma infinidade de perguntas, conselhos e brincadeiras nada agradáveis. Parece que não existia assunto até vocês chegarem, mas que com certeza vai pegar fogo quando vocês forem embora. Nesse momento fica um mal-estar, um incômodo, e em alguns casos até uma sensação de fracasso. Como se vocês dois não fossem capazes de lhe dar com a própria vida. Que coisa horrível!

Mas, surpresa: vocês também são culpados nessa situação! Agora vocês devem estar pensando: “O quê? Só pode ser papo de psicóloga! Eu não vou levar esse artigo em consideração! Imagine que nós somos culpados pela falta de bom senso e educação dos outros!”

Pois eu digo novamente: são sim! O que impede vocês de sinalizarem os seus limites? Se eles “se deram a liberdade” é porque vocês não deram limites. Se vocês querem respeito passem a se respeitar! E se vocês acham que isso pode ser considerado uma indelicadeza (maior do que a que fizeram com vocês, o que eu duvido muito!), saiba que limites podem ser colocados com a maior delicadeza do mundo, como por exemplo: “Ah, querida titia, já pensamos muito sobre isso, mas vocês terão uma verdadeira surpresa com as nossas decisões, então que tal mudarmos de assunto para não estragá-lá?”… E por aí vai. Sejam criativos!

Diante de tudo isso parem e pensem: vocês sabem impor limites para os outros? Se a resposta for não, lembre que isso significa que vocês só colocam limites para si mesmos. E isso é justo? Pense um pouquinho…