Só falar não é suficiente

Judith Beck, filha do criador da Psicoterapia Cognitiva Comportamental, acredita que não basta o paciente ir ao consultório e apenas falar, mas sim é necessário o uso de técnicas e estratégias obtendo assim resultados a curto prazo. Acompanhe abaixo a reportagem realizada pela jornalista Simone Iwasso, do jornal O Estado de São Paulo.

Nem todos precisam remoer lembranças da infância para resolver problemas da vida de adulto. Assim como não é o fato de ir ao consultório e falar por uma hora duas vezes por semana com um psicólogo ou psicanalista que fará alguém modificar o que está incomodando em seu comportamento. Além disso, a psicoterapia não precisa durar anos, muito menos a vida toda.

Sem medo das contestações, as afirmações são da psicoterapeuta Judith S. Beck, diretora do Instituto Beck de Terapia Cognitiva e Pesquisa na Filadélfia e professora de psicologia clínica na Universidade da Pensilvânia. Ela é também filha de Aaron Beck, o criador, nos anos 60, do que ficou conhecido como terapia cognitivo-comportamental e que no mês passado recebeu o prêmio Lasker, um dos mais prestigiados da Medicina americana.

Baseado na tentativa de mudar a maneira com que cada um responde aos problemas, usando para isso estratégias e tarefas a serem aplicadas, o método se popularizou pelo mundo pelos resultados de curto prazo. No Brasil, é uma corrente bastante estudada em faculdades de Psicologia e ambulatórios de hospitais universitários que tratam distúrbios de ansiedade, humor e transtornos alimentares. É também difundida no meio educacional, em centros de pesquisa de Pedagogia. Leia trecho da entrevista que Judith concedeu por telefone ao Estado, de Porto Alegre, onde esteve em outubro para lançar seu último livro, Terapia Cognitiva para Desafios Clínicos (Editora Artmed, 272 páginas).

Pelos trabalhos com a terapia cognitivo-comportamental seu pai recebeu uma premiação junto com outros médicos que pesquisam câncer e biologia celular, por exemplo. Foi um tipo de reconhecimento científico da psicoterapia?
A terapia cognitivo-comportamental é uma das psicoterapias mais pesquisadas e uma das que têm mais trabalhos desenvolvidos em universidades e laboratórios. Durante décadas, as pessoas quiseram saber se a psicoterapia era eficaz ou não, se os tratamentos funcionavam ou não. Sempre houve estudos para outras patologias do homem, como diabete, hipertensão, dores de todo tipo. Na psicoterapia, na área da saúde mental, havia muito pouco. Meu pai foi um dos primeiros a buscar esse lado científico ainda nos anos 60. Atualmente há mais de 400 pesquisas no mundo que mostram sua eficácia.

É uma psicoterapia bastante criticada e também elogiada por ser pragmática, baseada em regras e com resultados de curto prazo. Para alguns, é uma versão americanizada da terapia. Essa é uma leitura superficial ou o objetivo é mesmo esse?
Sim, é mesmo uma psicoterapia bastante pragmática. É focada na resolução de problemas e busca ajudar as pessoas a mudarem sua visão, suas respostas e seus pensamentos. É uma resposta muito melhor,não só porque é feita em pouco tempo, de curta duração, mas porque é eficaz. Acredito que nem todas as pessoas precisam voltar ao passado e ficar discutindo sua infância. Elas precisam aprender a ser seu próprio terapeuta. Não é suficiente ir ao consultório e falar. Não é fazendo isso que a pessoa muda, que os problemas se resolvem. O necessário é fazer pequenas mudanças todos os dias.

Isso não faz com que se obtenham respostas imediatas, mas que, a cada novo problema, a pessoa precise voltar à psicoterapia?
Temos pesquisas que mostram que a terapia cognitivo-comportamental dá duas vezes mais garantia de que os pacientes com depressão não terão recaídas do que se tomarem apenas remédios. Ou seja, ela é de curta duração, mas produz mudanças de longo prazo. Porque a pessoa muda quando entende o que faz com que ela fique mal. As pessoas geralmente têm uma visão distorcida delas mesmas, acham que não são boas, que não fazem nada direito, e com isso não se sentem seguras. Quando identificam o modo como estão pensando e aprendem a reavaliar esse modo, observando os indícios, a pessoa entende que não é bem assim. O importante é o quanto a visão que ela tem dela e do mundo é apropriada.

Como mudar essas visões distorcidas sobre elas mesmas?
São habilidades, ferramentas que os pacientes vão aprendendo, que os ajudam a mudar a maneira como pensam. Em alguns casos, a medicação pode ser usada com a terapia, como para esquizofrenia. Em outros casos, é fazendo a pessoa ver. Por exemplo, uma das últimas pacientes que atendi antes de viajar era uma mulher de cerca de 40 anos que se achava uma péssima mãe, e isso lhe trazia muito sofrimento. Mas pelo que ela narrava, não era tão ruim como acreditava ser. O que eu fiz foi perguntar a ela o porquê disso e fazer ela recordar a reação dos outros, dos seus filhos, todos os seus atos. No fim, ela percebe que não é uma mãe tão ruim quanto pensava que era. E também identifica os pontos em que pode melhorar, fazer alguma coisa e começar a agir de outro modo.

A terapia é bastante utilizada para transtornos de ansiedade, de humor, fobias. Há alguns tipos de patologias para as quais ela tem mais resultados?
Ela é importante em vários tipos de coisas. Distúrbios de ansiedade, fobias, depressão, stress, transtornos alimentares e abusos de substâncias ilícitas. E não só problemas psiquiátricos, mas também fibromialgia, enxaquecas. Ou seja, todas as doenças que estão ou são relacionadas com o lado emocional das pessoas. Que envolvem algum tipo de interferência das emoções no corpo.

A senhora está preparando um livro sobre dietas. A técnica tem uma proposta específica para esse problema?
Não é um livro para dizer o que as pessoas devem comer. É um livro para leigos, para quem quiser perder peso. A primeira recomendação é a pessoa seguir qualquer dieta desde que seja coerente, razoável. O livro enfoca a maneira como a pessoa lida com a comida, por que seus regimes não funcionam e ensina algumas estratégias para, a cada vez que a pessoa pensar em comer, ela se lembre de que seu objetivo é perder peso.

Mas isso não é o que o bom senso já recomenda? É uma resposta suficiente?
A diferença é que existe um método a ser seguido. A cada dia a pessoa começa a aplicar algumas ferramentas específicas. Não é para pincelar uma recomendação ou outra e achar que vai emagrecer. É, aos poucos, ir mudando a forma de se comportar. Experimentamos o método com vários pacientes obesos, acima de 100 quilos, e temos tido excelentes resultados.

Muitos profissionais dizem que a terapia cognitivo-comportamental é indicada apenas para problemas menos graves. É isso?
Isso já foi verdade, mas há anos começou a mudar, principalmente com mais pesquisas que envolvem patologias mais severas, com pacientes com mais de um problema. Temos muitas pesquisas recentes, principalmente na Inglaterra, que estudam a terapia em pacientes esquizofrênicos ou com transtornos de personalidade. Ela tem se adaptado às novas demandas que os próprios terapeutas têm recebido em seus consultórios, sempre baseada em pesquisas.

Os problemas mentais têm mudado? Mudou o perfil dos pacientes ao longo do anos?
Parece que temos mais pessoas com problemas psiquiátricos, mas parte disso é porque as pessoas estão mais dispostas a procurar ajuda, apesar de ainda ser um estigma. Percebo que há uma disposição, uma conscientização maior. Mas temos visto um aumento de algumas coisas, como distúrbios alimentares.

Para responder a isso, os terapeutas devem mudar?
Devem se basear nas pesquisas mais recentes, mantendo-se atualizados. Essa é a abordagem que meu pai já adotava nos anos 60 e que deu origem ao sucesso do tratamento de hoje.